Em uma casa no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, o futebol tem um significado que vai muito além do esporte. Para dona Marie Dilene, 62 anos, cada partida da Copa do Mundo carrega sentimentos que atravessam fronteiras, unem culturas e contam uma história de recomeço.
Haitiana, mãe de quatro filhos, ela chegou ao Brasil há quatro anos em busca de algo essencial: segurança e qualidade de vida para a família. No caminho, encontrou acolhimento e também um novo sentimento de pertencimento. Hoje, sua rotina se divide entre as lembranças da terra natal e a construção de uma nova vida no Rio Grande do Sul, onde passou a integrar o projeto Novos Imigrantes, do Centro Cultural Eintracht, em Campo Bom.
Mais do que aprender português, dona Marie encontrou no projeto um espaço de convivência e troca. Uma ponte entre culturas que se fortalece nos pequenos gestos: nas aulas, nas conversas, na dança e até na culinária. Um lugar onde histórias como a dela deixam de ser invisíveis e passam a fazer parte da comunidade.
Atualmente, o projeto avança para um marco importante: a conclusão da primeira etapa do curso de português, com 120 horas no nível 1, utilizando apostilas desenvolvidas pela Unesco. Mais do que um processo de ensino, a iniciativa se consolida como uma experiência de acolhimento e transformação, como destaca a coordenadora de projetos do Eintracht, Hebe Cardoso.
Mas, neste mês, a emoção ganhou uma dimensão ainda maior. Um dos seus filhos, Carlens Arcus, de 28 anos, está vivendo o maior sonho de um jogador de futebol: disputar uma Copa do Mundo. Zagueiro, ele atua no Angers, da França, e veste pela primeira vez a camisa da seleção do Haiti no principal torneio do planeta. Nesta sexta-feira(19), ele entra em campo contra ninguém menos que o Brasil.
Para dona Marie, o orgulho é impossível de medir. O olhar se enche de brilho ao falar do filho que atravessou oceanos e desafios até chegar ali. E, diante da pergunta inevitável, “para quem vai a torcida?”, a resposta vem com um sorriso sincero, daqueles que traduzem sentimentos complexos em poucas palavras. “Quando o Haiti está em campo, a torcida sempre vai para eles. Mas quando não, nosso coração é brasileiro”, declara.
A frase resume a dualidade de quem carrega duas pátrias dentro de si. De um lado, as raízes. Do outro, o chão que acolheu, protegeu e ofereceu novas oportunidades.
Ao lado dela, durante a entrevista, estava o neto, BildaArcus, de 17 anos. Foi ele quem ajudou na tradução da conversa, um símbolo vivo dessa mistura cultural. Jogador de futebol amador, o jovem não esconde a admiração pela seleção brasileira e por ídolos como Neymar e Pelé. Segundo ele, o carinho pelo futebol do Brasil é algo comum entre os haitianos. E questionado sobre quem considera favorito para o título da Copa do Mundo 2026, não titubeou. “França ou Portugal”, pontuou.
Enquanto isso, dona Marie vive a expectativa de um novo capítulo: aguarda a aprovação do visto americano para, quem sabe, assistir ao filho jogar ao vivo. Um sonho que, assim como tantos outros em sua trajetória, é movido por esperança.
Em Campo Bom, onde o projeto Novos Imigrantes floresce como um espaço de acolhimento, a história de dona Marie ganhou torcida. Não apenas pelo resultado dentro de campo, mas pelo que ele representa fora dele: a força de uma mãe, a coragem de recomeçar e a beleza de uma comunidade que se constrói na diversidade.
“Acompanhar a trajetória do filho de uma de nossas alunas representando a seleção do Haiti é motivo de grande alegria para todos nós. Mais do que aprender um novo idioma, o projeto tem permitido construir vínculos, conhecer diferentes culturas e perceber que a diversidade fortalece a comunidade”, comenta Hebe.
Quando a bola rolar, o mundo inteiro estará assistindo. Mas, em um canto do Vale do Sinos, o jogo terá um significado especial. Porque ali, entre o verde e amarelo e o azul e vermelho do Haiti, pulsa algo maior do que a rivalidade: pulsa o encontro de histórias, de culturas e de sonhos que atravessam fronteiras.
E, como em todo grande jogo, já há uma certeza: independentemente do placar, essa história já é uma vitória.











