Há histórias que são contadas. Há outras que, de tanto contar histórias, acabam fazendo parte delas. Em 20 de agosto de 1986, quando a primeira edição do Jornal A Gazeta chegou às ruas de Campo Bom, começava mais do que a trajetória de um novo veículo de comunicação. Nascia um projeto que, ao longo de quatro décadas, acompanharia de perto as transformações, conquistas, desafios e personagens que ajudaram a construir a cidade.
A história começou ainda em 1985, quando Fernando Santos, Mauri Spengler, Raquel Guimarães e Urquiza Santos passaram a alimentar o sonho de criar um jornal para Campo Bom. A experiência com a revista Verde e Amarelo, produzida voluntariamente pelo grupo e distribuída entre funcionários da Reichert Calçados, havia mostrado que existia vontade, e talvez necessidade, de ampliar aquela experiência. Foram meses de reuniões, ideias e planos até que o sonho ganhou data: 20 de agosto de 1986.
O primeiro investimento foi uma máquina fotográfica Yashica, trazida por Urquiza de uma viagem a São Paulo. As funções também estavam definidas: Raquel e Fernando cuidariam das reportagens e da editoração; Urquiza, da administração; e Mauri, do comercial. Faltava, porém, o mais básico: dinheiro. Sem recursos para investir, o grupo foi às ruas vender publicidade e assinaturas de um jornal que, naquele momento, sequer existia. Para convencer os mais desconfiados, que perguntavam se o jornal duraria um ano, a resposta era carregada de coragem: “não sei, mas se não assinares, é certo que não vai durar”.

E assim, em uma quarta-feira, por volta do meio-dia…
…a edição número 1 começou a circular. Impressa na gráfica do Jornal Destaque, em Esteio, foi distribuída pelos próprios integrantes nas ruas, comércios e sinaleiras.
As reações eram de surpresa e curiosidade, mas também havia algo maior: a cidade recebia um jornal feito para falar dela e para seus moradores.
Os primeiros anos foram de construção, mas também de dificuldades. Raquel e Urquiza deixaram o projeto, enquanto Fernando e Mauri seguiram à frente do jornal. Entre 1994 e 1998, veio uma das grandes apostas: a publicação passou de uma para duas e, posteriormente, três edições semanais, ampliando também sua circulação para municípios vizinhos.
A ousadia, porém, trouxe dificuldades financeiras. A empresa chegou a ter 17 funcionários, até que uma crise obrigou a direção a tomar decisões difíceis e reduzir drasticamente a estrutura.
Por aproximadamente três anos, o jornal funcionou na garagem da casa de Mauri. Foi um período de economia rigorosa, persistência e, sobretudo, confiança de anunciantes e assinantes.
Foram eles os principais responsáveis por manter vivo um projeto que atravessava um dos momentos mais delicados de sua trajetória.
Em julho de 2000, Fernando Santos deixou a sociedade
Mauri permaneceu à frente do A Gazeta e, ao longo dos anos seguintes, a família passou a assumir diferentes funções na empresa. Renan, seu filho, começou aos 18 anos na diagramação e mais tarde assumiu a direção. Em 2018, deixou a empresa para seguir novos caminhos. Depois, Angélica, filha mais nova de Mauri, trouxe novas ideias e uma proposta mais moderna para o jornal, permanecendo na direção até 2024, quando passou a dedicar-se integralmente à fotografia.
Enquanto as pessoas e as funções mudavam, o jornal também precisava acompanhar as transformações do próprio mundo da comunicação. Em 2009, A Gazeta iniciou sua trajetória no ambiente digital, passando a ocupar também o espaço que, cada vez mais, ganhava importância na rotina dos leitores: o site. Vieram as redes sociais: o Facebook em 2011 e o Instagram em 2014; novas formas de produzir e distribuir informação e uma velocidade que modificou profundamente o jornalismo. A adaptação tornou-se necessária, mas sem abandonar aquilo que estava na origem do projeto: o compromisso com Campo Bom e com os campo-bonenses.
Hoje, quatro décadas depois daquela primeira edição distribuída pelas ruas, são 2.303 edições que registram acontecimentos, personagens, conquistas, perdas, mudanças e momentos que fazem parte da memória coletiva da cidade. São quatro décadas em que o jornal não apenas informou, mas também ajudou a preservar a história local, deixando registrado em suas páginas um pouco de cada tempo vivido por Campo Bom.

A trajetória do Jornal A Gazeta também foi marcada pelo reconhecimento ao trabalho desenvolvido ao longo dos anos
Participante assíduo do Congresso dos Jornais do Interior, promovido anualmente pela Associação dos Jornais do Interior do Rio Grande do Sul (Adjori/RS), o veículo acumula 29 premiações nas oito edições do Prêmio Adjori de Jornalismo realizadas entre 2018 e 2025. Os reconhecimentos contemplaram diferentes áreas da produção jornalística, como reportagem, editorial, coluna, fotojornalismo, apresentação gráfica, caderno temático e anúncio, além da categoria Conjunto da Obra, conquistada em 2023 e 2024. As premiações representam o reconhecimento de um trabalho construído diariamente, que, ao mesmo tempo em que preserva a essência de um jornalismo local e próximo da comunidade, busca acompanhar as transformações e os novos desafios da comunicação.
Para Mauri Spengler, fundador e diretor ao longo de toda essa trajetória, completar 40 anos representa também uma forma de retribuir o acolhimento recebido quando chegou à cidade, em 1979. “Jamais poderia imaginar o que o futuro me preparava. Hoje, olhando para trás, vejo o quanto a vida me foi bondosa, podendo retribuir a Campo Bom todo o acolhimento que tive dos campo-bonenses”, afirma.

Aos 71 anos, Mauri continua fazendo planos para o futuro e mantendo como princípios o jornalismo sério, responsável e fiel à cidade
“Tenho nestas 2.303 edições do Jornal A Gazeta o registro de tudo que aqui aconteceu, desde 1986. Um patrimônio cultural e informativo de quatro décadas que poucas cidades possuem”, resume.
Aos 40 anos, A Gazeta chega ao aniversário carregando nas páginas não apenas sua própria história, mas também milhares de histórias de Campo Bom. Porque, em quatro décadas, a cidade mudou, o jornal mudou e a forma de fazer jornalismo mudou. O que permaneceu foi o propósito que nasceu antes mesmo da primeira edição: contar Campo Bom, com os olhos voltados para quem vive, trabalha, sonha e constrói a cidade todos os dias.




