A Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Amarelinha, no bairro Porto Blos, recebe mais de 130 crianças, desde o berçário até o pré-2, acolhendo os pequenos de 0 a 5 anos. É neste palco de desenvolvimento desde os primeiros passos que a escola se destaca por uma ideia que reúne literatura, representação e construção de cidadania: a Afroteca.
Idealizada em 2023, a Afroteca nasceu da reformulação da biblioteca escolar, com o intuito de ampliar os debates sobre questões étnico-raciais no ambiente educativo.
O projeto ganhou ainda mais força em 2025, motivado pelas discussões pedagógicas e pelas experiências relatadas pela professora do Projeto da Diversidade. A troca de ideias entre a equipe, somada ao entusiasmo geral, levou à criação de um espaço especial no saguão da escola. O local, que antes abrigava a Geladeira Literária, ação que permite o empréstimo de livros pela comunidade, passou a receber também obras que valorizam diferentes etnias, ampliando o acesso à diversidade cultural.
Além dos livros, a Afroteca reúne instrumentos, brinquedos, tecidos e outros materiais que conversam com as histórias disponíveis no acervo, proporcionando uma experiência sensorial e educativa. As obras não são exclusivas do público infantil, sendo acessíveis também aos adultos que frequentam o espaço.
A formação do acervo contou com sugestões vindas de cursos oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação, além da participação de membros da escola em eventos como o projeto Descolonizando Saberes e o Simpósio de Educação Infantil, que trataram do tema em oficinas e palestras. Entre os critérios de seleção, destaca-se a valorização de autores negros, fortalecendo a representatividade nas histórias apresentadas às crianças.
Com uma proposta pedagógica focada na educação antirracista, o projeto vai além do cumprimento de regras e se integra à vida da escola. A Afroteca se espalha por diferentes lugares da EMEI Amarelinha, como salas de aula, pátio, horta e até mesmo a bananeira cultivada pelas crianças, transformando a escola em um verdadeiro laboratório de aprendizado e convivência respeitosa entre as culturas.
Os livros, materiais e brinquedos do acervo foram comprados com recursos da Secretaria Municipal de Educação e também por meio de doações feitas pela APMEI. Além do espaço principal, cada sala de aula tem uma mini Afroteca, garantindo que o tema esteja presente no dia a dia dos alunos.
Os resultados da iniciativa já são vistos no cotidiano das famílias. A pequena Liz Guedes Gambim, de 3 anos, levou para casa o livro “Amor de Cabelo”, de Matthew A. Cherry, e adorou a história da personagem Zuri. Se identificando com a protagonista, Liz pediu à mãe, Patrícia Costa, que fizesse tranças em seu cabelo, inspirada nos penteados mostrados na obra. “Plantamos a semente nas crianças e não sabemos onde vamos chegar. Mesmo tão nova, a Liz já fala que quer ter o cabelo liso e comprido. Com a Afroteca, estou conseguindo fazer com que ela se veja e entenda que o cabelo dela é lindo do jeito que é”, conta a mãe.
O projeto sublinha como é crucial que as abordagens de ensino priorizem a igualdade racial já nos primeiros anos de vida. Segundo a especialista Eliane Cavalheiro, entender as nuances do racismo, que se manifesta de formas tanto óbvias quanto sutis, é essencial para criar estratégias de aprendizado impactantes, que fomentem uma comunidade mais equitativa e integradora.





















