Aos 40 anos, a arquiteta campo-bonense Michele Freitag se prepara para enfrentar o maior desafio esportivo de sua vida. No dia 10 de outubro, ela estará em Lisboa, Portugal, para correr sua primeira maratona: 42,195 quilômetros. Além do tênis, a roupa confortável e o número de peito, Michele leva consigo um acessório que a acompanha diariamente: a bomba de insulina. E para complementar os itens básicos para cruzar a linha de chegada, a fé e força de vontade para mostrar que o diabetes tipo 1 não precisa determinar o tamanho dos sonhos.
Michele foi diagnosticada aos 20 anos e convive há duas décadas com a doença. Há três anos, encontrou na corrida uma importante aliada para o controle da glicemia e também para o tratamento do linfedema que possui na perna direita. “Com certeza, junto com a alimentação é o principal aliado”, afirma.
A trajetória nas provas começou em 2025, já com distâncias de 21 quilômetros, quando participou da Maratona Internacional de Porto Alegre e da Maratona de Jurerê, tornando-se oficialmente meia-maratonista. Em 2026, completou mais uma meia maratona, na prova da New Balance, em Porto Alegre. Agora, chegou a hora dos 42 quilômetros.
A preparação inclui quatro treinos de corrida por semana, além de musculação, sob orientação do treinador Juliano Guarnieri, da Ironlegion, de Novo Hamburgo. Mas, para Michele, correr uma maratona tendo diabetes tipo 1 exige uma preparação que vai além do treinamento físico.
As hipoglicemias são um dos principais desafios. A corredora utiliza uma bomba de insulina interligada ao sensor de glicemia, que acompanha as variações da glicose e pode suspender momentaneamente a infusão quando identifica uma queda. Durante os treinos e provas, cada quilômetro também exige atenção aos sinais do próprio corpo. “Cada prova e treino é uma incógnita. Eu nunca sei o que pode acontecer”, conta.
Mesmo assim, o objetivo para Lisboa não é o relógio. Michele quer completar a prova dentro do limite de seis horas, mas considera que a verdadeira conquista será chegar ao fim sabendo que não permitiu que a doença definisse até onde poderia chegar. “Não é sobre o pace em que irei correr, nem o tempo que irei terminar a prova. É sobre saber que, mesmo tendo uma doença tão severa, não preciso limitar meus sonhos por isso”, destaca.
Ela viajará sozinha para Portugal, mas terá o acompanhamento do treinador e da equipe, que estarão no mesmo hotel e darão suporte até a largada. E, quando os 42 quilômetros começarem, Michele pretende levar consigo também uma mensagem para quem sonha em começar a correr, tenha diabetes ou não. “Só vai e deixa o medo no quilômetro zero. Se fosse pelo medo, ele me paralisaria, mas é a decisão e a consistência que fazem você ter fé de que é possível, apesar dos percalços, realizar qualquer coisa que quiser”, afirma.
Para ela, não se trata de competir com quem tem condições diferentes, mas de reconhecer a própria trajetória. “É não se comparar com os demais atletas que não têm essa condição e saber que você é exemplo e incentivo para muitos”, define.
Em Lisboa, Michele terá pela frente 42 quilômetros. Mas, para a corredora campo-bonense, a distância representa muito mais do que uma maratona: é a prova de que alguns dos maiores obstáculos podem, também, se transformar no ponto de partida para grandes sonhos.






