Um caso que colocou o nome de Campo Bom no foco dos holofotes em nível nacional teve um final feliz na última semana. Na noite de 27 de janeiro, Negão, cão comunitário que vivia no bairro Barrinha, foi atingido por uma bala de festim disparada por um policial militar durante uma abordagem.
Imagens de câmeras de segurança das residências do entorno da ocorrência gravaram toda a ação. Os gritos de dor e desespero de Negão chamaram a atenção e sensibilizaram a comunidade não apenas de Campo Bom, mas de diversas partes do país e do mundo. Imediatamente, ele foi socorrido por protetoras da ONG Campo Bom pra Cachorro e encaminhado a uma clínica veterinária para atendimento, com ferimentos nas patas traseiras.
Após 10 dias de internação, o destino de Negão mudou. Por conta da ampla divulgação do caso, diversas pessoas candidataram-se à adoção do cão comunitário, para que ele não precisasse mais voltar às ruas. Depois de entrevistas e de um processo minucioso para que a melhor decisão fosse tomada, a ONG definiu o futuro do animal.
O caso segue sendo acompanhado pelas autoridades. O Ministério Público monitora a situação para que o policial responda criminalmente por maus-tratos e, inclusive, intimou a ONG a apresentar os custos com o tratamento de Negão, além de atualizações sobre o quadro de saúde e a adoção do animal. A Polícia Civil informou que se trata de crime militar, cuja investigação é de atribuição da própria Brigada Militar. Já a Corregedoria-Geral da Brigada Militar confirmou que mantém apuração interna em andamento, mas não divulgou detalhes sobre o avanço das investigações.
Na última sexta-feira (6), Negão recebeu alta da clínica e, finalmente, conheceu seu novo lar. Adotado pelo professor Mogar Damasceno e pelo oficial de justiça Wallace Felipe, o cãozinho passou a morar em uma casa cheia de amor, afeto e carinho, longe das ruas e dos perigos. No local, conheceu seus dois irmãos pet: Theo, um shih-tzu de 10 anos, e Moana, uma cimarrón uruguaia de 3 anos. “A família agora está completa”, define Mogar.
O professor conta que, ao lado de Wallace, tomou conhecimento do caso de Negão a partir dos vídeos que viralizaram na internet, mostrando a violência cometida contra o cão. “Aquilo nos atingiu muito. Passamos a acompanhar, pelas redes sociais da ONG, toda a evolução do Negão, cada melhora no estado de saúde, cada pequeno avanço. Isso nos motivou a participar do processo de adoção e a torcer por ele desde o início”, lembra.
A preocupação deu lugar à felicidade ao saberem que foram escolhidos para ser a família de Negão. “Foi uma mistura de alegria imensa, felicidade e aquela pressa gostosa de quem quer preparar tudo com carinho. Saímos logo para comprar a casinha, a caminha, brinquedos, o pratinho de comida… tudo para que ele se sentisse confortável, acolhido e, principalmente, em casa”, conta Mogar. “O nome continua. Ele é e sempre será o Negão. Ele já atende por esse nome, faz parte da história dele, e nós fazemos questão de respeitar isso”, conclui o professor. A rotina de Negão, agora, é essa: descansar, brincar com os irmãos, farejar o pátio onde mora, comer uma boa ração, tomar água fresquinha e descansar mais um pouco — sabendo que, mesmo depois da dor sofrida, agora vive longe do perigo, rodeado de proteção, amor e carinho.
A história de Negão, infelizmente, não é um caso isolado. A ONG Campo Bom pra Cachorro abriga pelo menos 120 cães, além dos que moram com voluntários. Além deles, cerca de 90 gatos também continuam à espera de um lar. A presidente da ONG, Tatiana Aumonde, aproveita para fazer um apelo. “Muitas pessoas nos procuraram para adotar o Negão, mas nós temos centenas de ‘negões’ esperando por uma adoção. Muitos desses animais também sofreram maus-tratos, passaram por traumas e merecem, tanto quanto o Negão, a chance de encontrar o seu final feliz”, reforça.
















