Da Revolução Farroupilha ao tradicionalismo, data máxima dos gaúchos atravessa gerações e se mantém presente nos costumes, nos galpões e na vida de quem cultiva a cultura do Estado
Há datas que pertencem ao calendário. Outras pertencem à memória. No Rio Grande do Sul, o 20 de Setembro é as duas coisas. Neste domingo (20), o Estado celebra o Dia do Gaúcho, data que remete ao início da Revolução Farroupilha, em 1835, e que, quase dois séculos depois, continua sendo marcada por cavalgadas, música, dança, churrasco, chimarrão e encontros nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs).
Em 20 de setembro de 1835, tropas farroupilhas avançaram sobre Porto Alegre, dando início a um conflito que se estenderia por dez anos. A revolta reuniu diferentes grupos e interesses, em meio à insatisfação de setores da sociedade sul-rio-grandense com decisões do governo imperial, questões administrativas e econômicas, especialmente relacionadas à produção de charque.
Ao longo da guerra, os farroupilhas chegaram a proclamar a República Rio-Grandense e levaram o conflito também para Santa Catarina. A Revolução Farroupilha terminou em 1845, com o Tratado de Ponche Verde, mas deixou personagens, acontecimentos e símbolos que permaneceriam na memória do Estado.
Essa história, porém, precisa ser compreendida também em suas contradições. Entre os episódios mais dolorosos está o Combate de Porongos, em 1844, quando soldados negros que integravam as forças farroupilhas foram mortos em uma emboscada. O episódio, marcado por debates históricos, também integra hoje a memória sobre a participação da população negra na formação do Rio Grande do Sul.
Quando história virou tradição
Os costumes associados ao gaúcho atual não nasceram todos durante a Revolução. Churrasco, chimarrão, cavalo, música e dança possuem origens diversas e anteriores ao conflito. Foi principalmente no século XX que essas manifestações do cotidiano rural passaram a ser organizadas e valorizadas como símbolos de identidade regional. Nesse processo, um nome se tornou fundamental: João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes.
Em 1947, o jovem folclorista e outros estudantes do Colégio Júlio de Castilhos organizaram uma iniciativa de valorização da cultura regional que ficou conhecida como Ronda Crioula. Naquele ano, também surgiu a Chama Crioula, quando Paixão Côrtes, Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira retiraram uma centelha da Pira da Pátria, em Porto Alegre, e a levaram ao colégio, onde permaneceu acesa durante os festejos de 7 a 20 de setembro.
A iniciativa é considerada precursora da atual Semana Farroupilha, oficializada em 1964. Em 1948, Paixão Côrtes, Barbosa Lessa e outros pioneiros fundaram o 35 CTG, considerado o primeiro Centro de Tradições Gaúchas. O nome fazia referência a 1835, ano do início da Revolução.
Paixão Côrtes também percorreu o interior do Estado como pesquisador, registrando músicas, danças, costumes e manifestações da cultura popular. Seu trabalho ajudou a organizar e preservar práticas que passaram a ser transmitidas por meio do movimento tradicionalista.
Do fogo de chão à roda de chimarrão
Entre os símbolos mais conhecidos dessa cultura está o churrasco. Ligado à vida rural e à criação de gado, o preparo da carne no fogo de chão ultrapassou o ambiente das estâncias e tornou-se também sinônimo de encontro e hospitalidade.
O chimarrão, por sua vez, tem raízes indígenas e foi incorporado ao cotidiano de diferentes povos que viveram no Sul. Mais do que uma bebida, a cuia compartilhada representa convivência e transmissão de histórias entre gerações.
Nas danças, a tradição ganha movimento. Ritmos e coreografias de diferentes origens foram incorporados ao repertório tradicionalista e hoje fazem parte das invernadas artísticas, onde crianças e jovens aprendem não apenas passos, mas também músicas, vestimentas e aspectos da história cultural do Estado.
E há o cavalo, companheiro do trabalho campeiro, do transporte e das atividades no campo. No tradicionalismo, ele permanece como um dos principais símbolos da ligação com a vida rural e está presente nas cavalgadas que percorrem o Estado, inclusive carregando a Chama Crioula.
Uma chama que atravessa gerações
Em 2026, a geração e distribuição da Chama Crioula ocorreu em Rio Pardo, reunindo representantes das 30 Regiões Tradicionalistas. A partir dali, a centelha foi conduzida por cavalarianos para diferentes municípios.Em Campo Bom, a Chama Crioula chegou ao Parque do Trabalhador na segunda-feira (14), durante a abertura oficial da Semana Farroupilha, que se encerra neste domingo (20).
O ritual realizado hoje remete à centelha carregada por Paixão Côrtes e seus companheiros em 1947. Em 2026, a chama segue acompanhada do tema “Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição”, que destaca a contribuição das Missões e dos povos Guarani para a formação cultural do Estado.
É justamente nos CTGs que essa história continua sendo praticada. Nos ensaios das invernadas, nas rodas de chimarrão, nos churrascos, nas cavalgadas e nos encontros dos galpões, a tradição deixa de ser apenas memória e passa a fazer parte do presente.
Para quem vive o tradicionalismo em Campo Bom, o 20 de Setembro representa, portanto, mais do que a lembrança de uma revolução. É um momento de reafirmar vínculos, reunir gerações e manter vivos costumes que chegaram até aqui porque foram ensinados por quem veio antes.
Quase dois séculos depois daquele 20 de setembro de 1835, a chama continua acesa. Não apenas em uma pira, mas naquilo que cada geração escolhe aprender, praticar e transmitir para a próxima.
Para quem vive o tradicionalismo, o que significa celebrar o 20 de Setembro?
“A Semana Farroupilha mantém viva a cultura e a tradição do nosso povo gaúcho. É o momento de celebrar as lutas dos nossos antepassados e mostrar aos que estão chegando o legado do nosso povo. Em nossa cidade, a Semana Farroupilha envolve os quatro CTGs, fortalecendo os laços entre as entidades. É um momento que podemos mostrar ao público o trabalho dentro dos galpões e isso nos enaltece como tradicionalistas, aumentando ainda mais o sentimento de pertencimento deste movimento tão importante para a sociedade” – André Cioccari, patrão do CTG Palanques da Tradição
“Celebrar a Revolução Farroupilha é valorizar a história e a identidade do Rio Grande do Sul. Manter vivas as tradições ajuda as novas gerações a conhecerem suas origens, seus costumes e os valores que fazem parte da nossa comunidade. As comemorações aproximam as famílias, envolvem a comunidade e ensinam às crianças a importância de cuidar da cultura local. Comemorar esse momento não significa apenas relembrar o passado, mas também pensar sobre o presente e sobre como podemos construir uma cidade mais unida e consciente de sua história” – Márcio Schneider, patrão do CTG M’Bororé
“Cultivamos em nossos galpões, independente se é somente de danças ou canchas de cavalos, o respeito, os bons costumes e os encontros de famílias, sempre com o intuito de tirar as crianças da rua. Acreditamos que uma criança dentro de um centro tradicionalista está longe de coisas ruins que o mundo oferece, então um CTG está longe de ser apenas um tablado de dança ou uma cancha de laço. É feito um trabalho social muito sério, pessoas se doam voluntariamente pelo bem maior, que são as pessoas. Isso que a Semana Farroupilha representa: uma celebração de toda a luta do passado e presente por nós que temos como meio de vida o tradicionalismo” – Lúcio Veleda, patrão do CTG Guapos do Itapuí




