Uma trajetória que começou em Campo Bom e atravessou continentes ganhou, em 2026, um capítulo inesquecível: a campo-bonense Camila Blos está entre os profissionais que participaram da produção do curta-metragem “A menina que chorava pérolas”, vencedor do Oscar na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação.
Radicada no Canadá desde 2001, Camila construiu uma carreira sólida nos bastidores do audiovisual. Ela se mudou para Montreal para estudar Administração de Empresas, após já ter realizado intercâmbio na França. Foi no país norte-americano que descobriu sua vocação para o cinema, iniciando de forma discreta em uma produtora especializada em documentários sobre povos indígenas. A partir dali, não parou mais.
Com passagens por diferentes produtoras e pela CBC, rádio pública do Canadá, Camila chegou à National Film Board (NFB), uma das instituições mais respeitadas do mundo na produção de documentários e animações, com mais de 80 anos de história e reconhecida por preservar a cultura e a memória canadense por meio do audiovisual.
No filme premiado, Camila atuou como coordenadora de produção, sendo responsável por áreas fundamentais como organização de filmagens, contratos, pagamentos, gravações de voz e toda a estrutura administrativa que permite que uma obra saia do papel. “Quando o cineasta chega com a ideia, a gente faz acontecer”, resume.
O curta “A menina que chorava pérolas” tem 17 minutos de duração e utiliza a técnica de stop motion, um processo artesanal em que marionetes são fotografadas quadro a quadro para criar movimento. O nível de detalhamento é tão alto que, em um bom dia de trabalho, a equipe consegue produzir cerca de dois segundos de animação.
A história acompanha um menino que observa, pela fresta da parede, a vida de sua vizinha, uma menina que, ao chorar, transforma lágrimas em pérolas, em meio a um ambiente marcado pela violência da madrasta. A narrativa delicada aborda temas como o primeiro amor, o encantamento e a sensibilidade diante do sofrimento alheio.
O projeto começou antes da pandemia e rapidamente conquistou a equipe. “Quando o roteiro chegou, todos se apaixonaram”, relembra Camila. Após ser finalizado em meados de 2025, o filme percorreu festivais internacionais de animação, acumulando premiações e ganhando força na corrida pelo Oscar. A indicação veio no início de 2026, com a consagração na cerimônia realizada em março, em Los Angeles.
Para Camila, o reconhecimento é coletivo. “Um filme é um trabalho de muita gente, de muito amor. A própria Academia reforça isso: a estatueta é da obra, não de uma pessoa só”, destaca. Mesmo definindo sua participação como “modesta”, ela celebra o feito com emoção.
“Não tenho palavras para explicar o impacto. Nunca imaginei ver meu nome nos créditos de um filme que ganhou um Oscar. Uma guria que saiu de Campo Bom estar envolvida com pessoas tão incríveis… parece glamuroso, mas o que mais fica é o trabalho, a dedicação e o encontro de talentos”, afirma.
Atualmente, Camila segue na NFB como gerente de compras, dando suporte a produções e garantindo condições para que novos projetos saiam do papel. Apaixonada pela área, ela ressalta o papel transformador do audiovisual. “É um impacto enorme na vida das pessoas, tanto de quem conta quanto de quem escuta as histórias. Apoiar a cultura e dar oportunidade aos artistas é fundamental. Acho fascinante e muito importante essa questão do apoio à cultura, aos artistas, de manter, financiar, expor a qualidade, dar oportunidade de crescer”, conta.
Com orgulho das origens, ela deixa uma mensagem direta: “O segredo é se dedicar, trabalhar muito. Tudo aquilo que a gente constrói com esforço se torna uma força nossa. Ter meu nome em um filme premiado com o Oscar é algo que ninguém vai tirar de mim.”
De Campo Bom para o mundo, Camila Blos mostra que, mesmo longe geograficamente, as raízes seguem presentes, agora também escritas na história do cinema mundial.












