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Da baixada para o Maracanã

Da baixada para o Maracanã AG

A pequena residência localizada no final do Beco das Flores, no bairro Porto Blos, foi o cenário para a entrevista que durou pouco mais de uma hora. Era ali que, há poucos anos atrás, um moleque, ainda anônimo perante o mundo que iria descobrir, deu os seus primeiros passos. Descalço e sem camisa, Mateus Norton ou, na época, apenas Mateus, descobriu que vale a pena acreditar em sonhos. Dos percalços que a vida lhe impôs, ele precisava de muito pouco para ser feliz e passar horas de seus dias ocupado com apenas um brinquedo: a bola. Foi este brinquedo que, com o passar dos anos, acabou virando a sua profissão e agora é o sustento para a sua vida. Graças ao seu esforço, ele largou as camisas de Greminho, União e Riograndense, que usou jogando a várzea de Campo Bom, para vestir a camisa do Fluminense do Rio de Janeiro, um dos clubes mais vencedores do país. Os pés, que no passado, pisaram nos campos da baixada, hoje, aos 21 anos de idade, desfila um futebol de qualidade e pegada no Maracanã, o principal templo do futebol brasileiro.

A FAMÍLIA COMO BASE

A reportagem do AG foi recebida por uma senhora, de sorriso acolhedor, que se apresentou como sendo Dona Eunice, mãe de Mateus. Foi ela, junto com o marido Francisco, que segurou a barra de Mateus e de outros cinco filhos (Edilaine, 36 anos, Dejair, 34, Franciele, 28 e os gêmeos Jacson e Jaqueline, 24) nos momentos mais difíceis. Todos cresceram e moram na pequena, mas acolhedora casa no Porto Blos.

Dono de uma fala pausada, tranquila e mostrando uma serenidade e inteligência ao usar as palavras, Mateus, que passou o mês de dezembro de férias em Campo Bom, definiu o que, para ele, significa todo esse amor e cuidado dispensado por sua família. “A família para mim representa tudo! Independente das dificuldades que enfrentei, ela sempre esteve ao meu lado para me fortalecer nos momentos mais difíceis da minha vida”, disse.

AS LIÇÕES DAS DIFICULDADES

A numerosa família sempre viu na união o combustível para transpor as dificuldades. Uma delas sempre foram as rotineiras enchentes que atingiam e ainda atingem a residência, localizada na região ribeirinha da cidade. “Praticamente todos os anos a água invade a nossa casa e acabamos perdendo algumas coisas materiais, já estamos acostumados com isso. Mesmo sendo épocas difíceis, sempre procurávamos ficar felizes com o pouco que sempre tivemos. Lembro que eu e meus irmãos brincávamos na água da enchente, que invadia os nossos quartos”, relembrou o jogador.

Mateus passou muitas dificuldades. Passou fome. E foram esses momentos que o fizeram aprender a nunca desistir e que cada conquista tem o seu preço. Ele lutou, pagou para ver e hoje pode ser considerado um vencedor. “Tiveram momentos que a gente (ele e a família) passou até fome. Uma situação bem difícil. Às vezes eu precisava ir para a rua para tentar conseguir alguma coisa para comer. Cheguei a ficar até 24 horas na rua para procurar comida. Teve uma época que precisei virar pedinte. Ia nos bares para tentar conseguir alguma coisa para poder levar para dentro de casa. Mas graças a Deus as coisas foram mudando. Foram acontecendo”, relembra emocionado. Mateus contou que trabalhou em diversos lugares na juventude, e relembra que foi funcionário de uma floricultura da cidade. “Eu não entendia nada de flores, mas eu trabalhava (risos)”.

O FUTEBOL PARA ESQUECER OS DIAS RUÍNS

Morando há cerca de 100 metros do campo do Greminho, Mateus elegeu o gramado, nem tão regular, do tradicional time da várzea campo-bonense para ser a sua segunda casa. Foi lá que ele passava intermináveis horas, brincando com amigos. Nestes momentos ele esquecia do peso e das dificuldades que passava. Nesta época ele jamais imaginava o que o futebol ainda iria lhe proporcionar. “Acho que o futebol sempre esteve em mim. Eu vivia nos campos, correndo atrás de uma bola. Eu sempre olhava e tentava me espelhar em caras mais velhos do que eu”, salientou.

Foi no Programa Acolher, idealizado pelo Governo Municipal, que Mateus começou, de fato, a se destacar. Era 2011, ano em que ele sentiu a responsabilidade de entrar fardado e de chuteira em um gramado. A partir dai, as coisas começaram a acontecer. Ele passou pelas escolinhas UJC e 15 de Novembro, onde o grupo realizou um excelente Campeonato Gaúcho sub 17. “Quando saí do 15, fui para o Novo Hamburgo e depois o Aimoré. Neste meio tempo tive a oportunidade de ir para o Grêmio, mas acabou não dando certo e voltei”, conta os seus primeiros passos. Neste momento de sua vida, Mateus destaca o olhar profissional e incansável do professor e amigo Marquinhos Porciuncula. “Uma pessoa que está sempre me ajudando. No início eu passava muitas necessidades e foi ele que sempre segurava a minha barra, me oferecendo ajuda. Além disso, sempre cuidou da minha parte física”, destacou.

Mateus sempre estudou na Escola Estadual João Blos, no bairro Porto Blos, onde teve que abandonar os estudos no 1º ano do ensino médio, por conta dos treinos e viagens.

ASCENSÃO METEÓRICA

Mateus chegou em 2015 para compor o grupo de base do Aimoré. Mas o tradicional clube gaúcho não estava dando a visibilidade que o campo-bonense imaginava que iria lhe dar. Além disso, as dificuldades insistiam em bater à porta do jogador. “Muitas vezes eu ia para os treinos sem conseguir comer nada. Tomava um cafezinho e só”, relembra. “Além disso, eu estava vendo que as coisas não estavam acontecendo como eu imaginava, até porque muitas vezes somos muito imediatistas. Neste tempo eu pensei seriamente em desistir. Aí fui me aconselhar com o Marquinhos e ele não teve dúvidas em dizer para eu insistir no futebol, porque via talento em mim. Graças a Deus, a partir daquele momento as coisas começaram a andar para frente. O clube me subiu para o profissional e as oportunidades começaram a aparecer”, conta.

Após ótimas participações com a camisa 5, jogando de volante, no limitado time do Aimoré, Mateus foi observado por empresários que se encantaram por seu futebol, o que acabou lhe rendendo um contrato com o Fluminense, do Rio de Janeiro.

A DIFÍCIL ADAPTAÇÃO NO RIO

O campo-bonense chegou no Fluminense em abril de 2016. Não foi a primeira viagem de avião, nem o solo desconhecido da cidade maravilhosa que intimidou o menino, mas a saudade da família que fez novamente Mateus sofrer. “Quando eu cheguei lá foi muito difícil porque a realidade é totalmente diferente daqui de Campo Bom. Eu fui acompanhado dos meus empresários. O primeiro dia no Rio foi tudo lindo e maravilhoso. Meus empresários me levaram para conhecer a cidade. Mas no segundo dia, quando eles me soltaram lá, daí eu fiquei muito abatido e com medo de como seria dali para frente.

esmo sendo muito bem recepcionado no clube e pelos colegas de time, eu senti muito o fato de eu nunca ter saído da minha terra. Eu sou muito apegado com minha família, principalmente com a minha mãe, ai quando fui para lá, com o passar dos dias, a saudade foi aumentando e doía no peito. Cheguei a pensar ‘Meu Deus o que eu estou fazendo aqui?’. Mesmo assim, eu fiquei e tudo está fluindo”. Hoje Mateus vê nas redes sociais, onde se comunica diariamente com seus familiares, uma válvula de escape para driblar a saudade.

Dona Eunice se mudou para o apartamento do filho há 5 meses. O jogador noivou, recentemente, com Elisama Fontoura, natural de Três Coroas, que também está de mudança para a Barra da Tijuca.

A BOA RELAÇÃO COM ABEL BRAGA

O jogador fez questão de falar de sua relação com o técnico Abel Braga, hoje comandante do Fluminense e um dos treinadores mais vitoriosos do futebol brasileiro nos últimos anos. “O Abel Braga é uma pessoa muito boa. Apesar da experiência dele e do que ele já ganhou no futebol, ele é muito humilde e simples. Mesmo diante da morte do filho em 2017, ele jamais baixou a cabeça. Sempre foi o mesmo com nós. Ele é um paizão para todos os jogadores. Nunca vi ele se exaltar com ninguém. É um homem de caráter sensacional. Fui no enterro do filho dele para tentar levar um pouco de conforto”, relata.
A boa relação com o comandante, aliada a dedicação e disciplina de Mateus, rendeu 14 participações em 2017 no time titular, a maioria como volante, onde passou o ano sendo o reserva imediato de Wendel. Com a chegada de Richard em 2018 a concorrência aumentará na volância, podendo Mateus ser usado também como lateral direito, que também já atuou em outras oportunidades.

O contrato assinado em 2016 com o clube carioca terminaria no final de 2018. Porém, as boas atuações do volante fizeram com quem a diretoria do Flu antecipasse a renovação, agora até 2020.
Mateus segue trilhando o seu caminho e segue o sonho que lhe acompanha desde os primeiros passos nos campos da baixada campo-bonense: “Meu sonho e objetivo de vida é chegar na Seleção Brasileiro e jogar na Europa”

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